domingo, 31 de agosto de 2014

Escrevia

Razão de ser
"Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece.
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?"
(LEMINSKI, Paulo)

Escrevo porque preciso, sim, Leminski. Escrevo pra organizar o que não sinto. Escrevo, também, porque minto. Escrevo porque aquilo que dói precisa ser amenizado. Escrevo porque, lá no fundo, aquilo que cala também precisa ser falado. Escrevo pra tirar das entranhas o silêncio que me provoca. Escrevo, sim, porque a lacuna das entrelinhas incomoda.
Escrevo, mesmo que não seja pra ti. Escrevo, ah, sem destinatário, pra mim. Escrevo, deve ser pra ninguém. Escrevo, talvez, só porque o ócio convém. Escrevo, sem admitir que não leio. Escrevo porque não há fim que justifique o nosso meio. Escrevo pelo que guardo aqui. Escrevo por desacreditar do que vi. Escrevo pela tranquilidade que fica. Escrevo pelo Carnaval que vai. Escrevo porque, no fim, tudo expira. Escrevo pra lembrar que a confiança trai.
Escrevo pelo meu desespero. Escrevo pra acalentar meu medo. Escrevo sem rima, sem métrica, sem vida. Escrevo, mas sempre esqueço qual foi o meu ponto de partida. Escrevo pra abraçar a ausência. Escrevo, sempre vítima da minha inocência. Escrevo, de verdade, não sei pra quem. Escrevo – deve ser pra esperar a felicidade que vem.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Lirismo bem comportado que desistiu de ser libertação

Eu sei, embora preferisse não ter conhecimento de causa, que tu depositarás um bilhete na caixa postal e imaginarás a minha reação ao lê-lo. Eu sei que a tua exasperação será tanta que não suportarás admitir o futuro como uma incógnita -- sei, meu bem, que tu me ligarás e repetirás tudo aquilo que escreveste anteriormente. Eu sei que tu me mandarás flores, recitarás sinceros e ridículos versos e comporás melodias com o tom da minha existência. Eu sei que tu me acompanharás aos quatro cantos do mundo e me convidarás para conhecer Marte. Eu sei que dividiremos a cama e tu cederás o cobertor para que eu me aqueça. Eu sei que tu viajarás para outra galáxia e enviarás notícias. Eu sei que tu sentirás ciúme dos meus livros e pedirás, em tom de súplica, que as enciclopédias cedam espaço na estante para os nossos porta-retratos. Eu sei que tu fingirás e elogiarás a minha péssima comida. Eu sei que tu reclamarás das minhas noites em claro e tentarás descobrir o que me aflige. Eu sei que tu criarás artifícios e me convencerás a abandonar o sedentarismo. Eu sei que tu segurarás as minhas mãos, mesmo quando a minha frieza atingir níveis alarmantes. Eu sei que tu compartilharás dos meus ideais e discordarás do meu sectarismo. Eu sei que tu enfatizarás que sou pequena -- ínfima -- e o quanto preciso crescer para deixar marcas mais relevantes no mundo. Eu sei que tu abrirás os meus olhos e farás com que eu queira parar de transitar. Eu sei que tu entenderás -- sem justificar -- o que sou. Eu sei que compreenderei minuciosamente o que és. Eu sei que saberemos pouco. Eu sei que desejaremos muito. Eu sei que seremos nós.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Primeira pessoa

Términos suscitam análises; se a psicologia não responde aos meus questionamentos, recorro a quem anseia pela minha chegada. Conto um segredo: poucos sabem que o sonho da celulose é dissipar a ausência com um arco-íris. Atendo às lamúrias gritantes de quem me abraça, culpando os "velhos tempos" pelo ato: transformo o papel, induzindo que meu corpo traduza os quereres da alma.
Engano-me, sim, quando ordeno ao meu lirismo que exalte sensações que não tenho. Entre posses e fugas, contudo, paro no meio do caminho; eis a pedra. Aproprio-me de Drummond: o entrave é, de fato, maior do que a solução. Meu querer não é intransitivo e precisa - sem complexidade - ser completado. Acabo por supor que exista uma relação inversamente proporcional entre sentir e saber; ter a noção de que a sensação é plena envia o tormento dos argumentos contrários às minhas teses. Escolha ou imposição, sei que não sei e isso me basta para permanecer sentindo. Escrevo sobre a minha bênção: ignorância.
Não respondo às pretensões, negligencio ao que me peço, não adiro às lógicas e repudio a linearidade. Meu maior abuso é ser comedida e transferir a felicidade para os próximos vinte anos. Espero que o futuro dispense vocábulos conectivos e esteja longe o bastante para que as minhas utopias sejam edificadas. O clímax do texto é sempre o perigeu da minha certeza. Evito dizer, porque já me basta pensar.
Presenteio as entrelinhas com as lacunas do raciocínio. A liberdade da prosa se encerra quando decido analisar a pintura: tinta a óleo dificulta a arte... Borrei.

sábado, 11 de agosto de 2012

Eu-lírico, você-lírico

Nossa relação é antítese; talvez eu recorra às hipérboles para detalhar com eficácia os pormenores que contornam os nossos vínculos. À deriva, apoio-me em metáforas. Se as palavras se assemelham a cartas embaralhadas, abraço as interjeições. Ah, somos retângulos que se esqueceram de que a adequação às normas cultas é uma exigência mais do que fundamental. Paralelogramo. Paralelo.
Gosto de pensar nós como nós: pronome como substantivo. Entrelaçados, presos por conveniência ou força maior. Segurando o acaso entre nós. Alimentando a esperança de que, algum dia, o fio rompa, após anos de resistência e ardor, liberando e libertando o presente. Intersecção disfarçada. Entre nós. Nós.
Percebo a existência de um dilema, quase um paradoxo. Se falo em primeira pessoa, pareço falsamente sensível e aberta em demasia. Ao contrário: não me sinto disposta a contrariar o que se vê. Eu sinto, eu doo, eu me doo em quantidades não recomendáveis. É comum. Não sou eu e não parece o que é. É nó.
Abandono o "eu", discurso para ti. Tu. Lerás? Chico Buarque cantava a alguém, Quintana chorava por alguém, eu escrevo para alguém. São seres diferentes e ideias incongruentes na essência. Se te utilizo como você, encaixo-te em uma ordem involuntária de vocês que não te (nos) representa. Por consequência, torna-te mais um. Da Silva. Você da Silva.
Por qual recurso opto? Qual verbo transcreve a ação? Qual pronome suprime meu querer-dizer e incorpora o não-dito também? Ao fim, avalio o te(x)to. Conto as peças do quebra-cabeça e reparo no que não é passível de conserto. Silencio diante das frases. Atrevo-me a aderir a uma perspectiva mais concretista e menos pragmática da vida; let it be, life goes on. A continuidade aponta o surgimento das reticências; insurjo-me. Prefiro o que é definitivo e não permite dúvidas. Sei que gosto do certo, mas tu és o errado.
Diga-me com quem andas e te direi quem és. Diga-me do que gostas e te direi que és o contrário disso. Assim, perturba-me e injeto em ti doces deletérios; lá pelas tantas, dedico minhas cartas e canções sem métrica para que, em troca, receba um sorriso de aprovação. Juntos, formamos dramas e epopeias - esperamos pelo alarme do despertador. Despertando a felicidade para acariciar a tradução.
Par perfeito, tu semeias a discórdia e, com pouca constância, me oferece as respostas. Tua companhia é a melhor definição de presença, da mesma forma que a tua ausência é um ensaio da inércia. Na nossa história, dividimos o protagonismo e nutrimos certezas sobre o futuro.
Estamos atados. Colados. Lado a lado, existência com existência, palavra com palavra. Pensamento com pensamento.
Eu e você. Causa e efeito. Corpo e lirismo. Nó.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Inspiração, sou tua!

Litígio
ou
Carta à Inspiração

Que tal um oi na janela

Só pra provar que você ainda existe?
Cá entre nós
Ando um pouco escondida e triste...

A tua falta desespera
O teu excesso é loucura
Ou as páginas são vazias
Ou sofro de constantes tonturas!

Aqui dentro, o caos assenta
Lá fora, a caneta seca
O recanto gentil de minhas palavras
Já chora com as páginas amarelas.

Não espero uma epifania
Tampouco uma maré de sorte
Quando foi que perdi a bússola
Que me dizia o ponto norte?

Se penso, perco a estrada
Fico longe das exclamações
Se paro, enfrento o congestionamento
Atordoa-me o barulho das interrogações!

Das redações de trinta linhas, sinto medo
Das belas prosas e poemas, não me lembro
Eu, que era requisitada para escrever cartões
Apavoro-me só de pensar em Dezembro!

Não sei se foi excesso de Pessoa
Acho que Lispector embaralhou as tuas ideias
Essa história de liberdade e denominação
Fez com que adiantasses o período de férias!

Tanto carinho lhe dei
Para que docemente amadurecesses
Agora fechas a porta
Como se a mim desconhecesses?

Destrata-me com amargura
Do meu caso pareces tirar sarro
Já dizia Augusto dos Anjos:
O beijo é a véspera do escarro!

Bonita tu apareces
Vestido florido, cabelo arrumado
Depois arranjas um motivo
Pedes o divórcio e está tudo acabado!

Devolva-me os versos
Se há uma pílula, mande-a num postal
Permanecer sem a tua presença
Para a minha essência será fatal!

Até desenvolvi insônia
Consola-me saber que por isso vais pagar!
(Quando chegares, te ofereço meu colo
E uma lírica canção de ninar.)

segunda-feira, 19 de março de 2012

Acting naturally

Condolências à razão

Na infâmia do que é triste
Imersa nos tamanhos relativos
Exprime a falta de coesão
A moldura do quadro
Da foto envelhecida
Paradoxo irredutível
Destrói a antiga novidade
  
Se a mão escreve
A veia salta, pulsa, leva, traz
Retorce verdades
Enquanto me contorço na cadeira
Abafando o ciclo
Para conter as ondas
do Pensamento, instituição nobre
  
Mar, límpido, desperta
Averigua o território
Reconhece o caminho
Abriga e silencia
Emudecido, descobre:
O que outrora fazia sentido
Agora não sente nem perscruta lógica
  
Pela janela, a beira da praia
Vê a verdade 
Mutável
Admite a vulnerabilidade
Tua alma é relicário
Guardião da emoção.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Fábula das vias transversais

dei boa noite à vírgula beijei no rosto o ponto final que rejeitava qualquer possibilidade remota de felicidade no desfecho triste da história inacabada mas no fim do fim do início desisti de qualquer impacto e firmei um pacto que não teve sangue nem outro elemento simbólico mas ainda foi um pacto selado mesmo que tenha sido calado com o mosquito que voava enquanto eu deitada imaginava se insetos pensam ora bolas já haviam me dito que só humanos eram racionais mas talvez deixando de lado o conhecimento daquele bom rapaz e considerando o termo humano como uma característica mais emocional e que é volúvel ao ser e nada intrínseca muito menos perpétua pensei que caso fosse comparado com determinado homo sapiens que poderia ser eu ou a senhora que me entregava o mocaccino em mãos na cantina do colégio de alguma maneira o bichano pequeno e quase imperceptível tivesse mais noção do que fazia e do que sentia e do que por ventura desejava além de naturalmente almejar um presente de sorte vindo do futuro que prolongasse a sua sobrevivência e tive certeza de que aquele mosquito era muito humano mas na verdade eu acreditava que se contasse a história para o filósofo que estudou na frança e que entende muito sobre a vida mas pouco sobre si mesmo o cavalheiro cheio de bons modos e com uma presunção entranhada diria que minha lógica estava errada completamente equivocada e que a minha vindoura tese de doutorado teria que ser baseada e embasada em outra coisa mais palpável porque ele preferia crer que eu era mais inseto do que humana e não o contrário e relutei em contar a novidade e pensei que eu era maluca e que absolutamente ninguém conseguiria compreender a velocidade do meu raciocínio e/ou interpretar minhas afirmações como detentoras de um pingo de veracidade e que todo mundo diria que eu bebi demais sonhei demais falei demais pensei demais dormi demais comi demais escrevi demais julguei demais e fiz tudo em demasia quando eu não havia feito nada a não ser deitar e mirar o teto e pensar em insetos e consciência e racionalidade e conceito humano e debochariam dos frutos do meu pensamento e o colocariam no topo do altar da missa do dia seguinte rezando pela minha alma para que eu voltasse a apresentar uma espécie de qualquer coisa comum mais parecida com tristeza do que normalidade e todo o pragmatismo das coisas me parecia distante depois que eu havia jogado o café no chão da cantina e feito o inseto ir embora do meu quarto à palmadas no ar e oh senhor mosquito você levou embora o que me fazia humana mas me deixou suas asas e nenhum estranhóide sapiens me alcança quando viajo e por surpresa descubro algum fator novo que desafie a ordem e promova um caos benéfico comportamental e uma dicotomia que resulta em antinomia e sobram contradições versões e especulações sobre os efeitos da cafeína e o desenvolvimento de uma nova raça de mosquitos que ao picar humildes e tangíveis moças indefesas transmitem certo veneno que corrói as explicações e só lança perguntas perguntas perguntas e pontos de interrogações na vítima você é um meliante senhor mosquito e eu sou a indefesa donzela do nosso romance do autor amigo do acaso casado com o destino que brigou com o ponto final e não criou um término alegre para a fábula da promissora sociedade falida do mito da exclamação

domingo, 30 de outubro de 2011

Olha o passarinho!

Odisséia do Coração
ou
Ode ao Passado

Eu pedi para que tu não partisses. Lembro-me de ter dito que a tua presença era a materialização das coisas que sentimos sem poder falar. Confessei meus erros para que, em vão, pudéssemos aprender juntos algumas fórmulas que conduzissem a acertos. Entendi o teu silêncio como um pedido, a tua indecisão como medo, a tua mudança como crescimento. Murmurei que a eternidade poderia durar o quanto fosse, sem que eu hesitasse em garantir o meu – nosso – futuro sempre. Contei-lhe que os fins até poderiam, de fato, ser infinitos – eu me reinventaria à medida que a existência recomeçasse. Dividi meus segredos, compartilhei as lamúrias e, em sobressalto, descobri as verdades que ambos guardávamos. Cavei buracos, criei esconderijos para que tu me encontrasses e fugi olhando para trás, esperando que tu estivesses me seguindo. Sorri com receio, agradeci mentalmente pelo fenômeno da romantização da rotina que ninguém além de ti provocou. Quis ser fato, tato, olfato, paladar e visão; quis validar, tocar, cheirar, provar e enxergar. Busquei maneiras de conhecer-lhe e de compreender a tua distante permeabilidade. Fingi descaso e assumi a minha suposta invulnerabilidade. Questionei o destinatário de teus dizeres, optei por depreciar-me e elevar-te. Assisti aos teus passos e gaguejei sem completar o ritual de despedida.
Acontece que tu não suportavas a dúvida e clamavas pelo imediatismo. O teu tempo não era meu, a tua presença era abandonada, a desistência era mais do que uma possibilidade. A tua reinvenção era em prol de nada, e tu ias decaindo, descendo, aproximando-se do chão, atingindo a nulidade. Votou em branco, preferiu o certo, um pássaro na mão e eu voando.
Voei. O vento me levou, caí do ninho, rompi a casca. Mas, ah!, que desventura. Tentei ser sincera e pareci tola... Deixei o amor secar ao sol junto com as lágrimas.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Sem jeito e do meu jeito


 "I faced it all and I stood tall and did it my way!"

Desafiaram-me a falar sobre Laíza. Treslouquei-me - o que discorrer sobre quem abriga muito do mundo e pouco de si mesma? Descrever as suas incógnitas implícitas, em sua maioria, conclamando pela fugaz descoberta e conquista, seria uma tarefa tão árdua quanto medir as intensidades dos sentimentos. O que em demasia me contradiz – e muito me diz – são os seus contrastes luminosos que espelham amarguras de tempos vindouros. A palidez de sua expressão por vezes introvertida mascara e camufla a fluidez de sua existência, tornando minha dissertação difícil e variavelmente equivocada.
Laíza. La-í-za. O falso acento agudo, transposto em seu nome apenas para facilitar a pronúncia e, vaidosamente, para dar leve charme ao normal - faz jus aos adereços pessoais, adicionados pelo tipo esquisito de acaso induzido. Nome curto, sonoro, às vezes confundido com Luiza, Laís ou Larissa. Não se importa em corrigir, rindo das regras da Língua Portuguesa: “é Laíza, com a sílaba tônica no i”.
A menina que descrevo – com imenso prazer e tamanha discórdia – tem os seus requintes comuns: é gaúcha, tem quinze pouco-longos anos e está na “flor da idade”, não é visivelmente deslumbrante ou proveniente de outro planeta; ela é daqui, dali e de onde houver permissão para a sua entrada. Possui cabelo castanho, olhos de “jabuticaba”, mãos finas intituladas como de “pianistas”, pernas compridas que tem vergonha de mostrar, cintura fina e apetrechos mais do que normais. Ela é normal, comum, ordinária em suas fraquezas; porém, de algum jeito surpreendentemente rarefeito, ela é anormalmente normal.
Ora, pois! Ela é clichê. Vive se perguntando, afinal, por que não há uma definição categórica sobre o que é esse tal de “clichê” que todos falam. Há de existir uma regra para se fugir do vulgar. Seus costumes são manias, e suas manias são habituais: passar a mão em superfícies lisas e bater com as unhas nos utensílios de plástico somente para sentir o som ecoar, calçar primeiro o pé direito nos sapatos, amassar folhas e desamassá-las e amassá-las novamente, vivenciar engraçada sensação ao conhecer pessoas novas e imaginar como a escrita delas deve ser, fechar os olhos enquanto a música toca e colocar-se em histórias que não lhe pertencem, ter que prender o cabelo para solucionar problemas matemáticos, somente conseguir escrever em silêncio e quando sente o seu coração dar um pulinho – deveras estranho e profundamente animador – em seu peito.
Cresceu em Esteio, mas sonha com Porto Alegre e com a faculdade de Direito na famosa Federal do Rio Grande do Sul. Estudante do Ensino Médio e do Curso Técnico em Gestão Cultural, enxerga nas questões burocráticas e nas papeladas de textos uma de suas maiores diversões. Gosta de política, mas está longe de ser sectária; define-se como “centrista” (decisão que, convenhamos, não durará muito tempo, tendo em vista a sua necessidade crescente de assumir posições e defender ideais). É perfeccionista em excesso e ouve ainda mais excessivamente de seus professores que deve “se permitir errar”. Poucos sabem que ela vive errando para acertar. Tem medo do fracasso e ainda não traçou um ponto perfeito no plano cartesiano dos eixos “não se importar com as opiniões externas” e “ser naturalmente autêntica”. Prefere exercer o poder de estar no limiar - considerar o que vem de fora e valorizar o que vem de dentro.
Não é por acaso que o seu nome rima com “juíza”; humana e sentindo-se culpada, ela julga e opina sobre quase tudo que não deve. Aprendeu a assumir os erros e, hoje, diz-se liberta dos maléficos orgulhos que a impedem de proferir as sinceras desculpas. Equivoca-se, mas possui olhos abertos o suficiente para enxergar os enganos. Tenta achar a medida certa na hora de balancear a impulsão e reflexão – às vezes e inconscientemente, opta por uma ou por outra. A casualidade manda.
Cobra demais de si mesma e – mais um contraste! – solta as rédeas com os próximos. Faz o que precisa, até o que não sabe e, assim, acaba por saber. Tem medo de arriscar e de ultrapassar os limites da ousadia, além de não saber demonstrar os seus sentimentos da maneira como gostaria – na maioria do tempo, todos os caminhos guiam para algum tipo de desastre que acarretará no simplório caos interno. Borbulha pensamentos, enquanto as falas pouco transbordam. Já tentou se comunicar por telepatia, ainda não sabe fazer pestanas ao tocar violão, escreveu propositalmente da maneira errada para parecer amigável, achou que baratas realmente tinham sangue azul, surpreendeu-se com o mundo e sorriu perante aos olhos dos outros – e gostou da sensação de satisfação.
Incompreendida, a minha – talvez “nossa”, por ventura? – moçoila gosta de imaginar o futuro e tem como passatempo a arte de construir planos; há ato mais prazeroso do que delinear mentalmente a realidade da próxima década? Quando pequena, afirmava que aos quatorze anos, já teria conhecido o “amor da sua vida”; hoje tem quinze anos e não sabe se a tal história de um amor para toda a vida não é utopia.
É apaixonada pelas palavras, por música, por arte em geral e por verdades que sejam de verdade. Enunciada como “doce”, “fofa” e “delicada”, não se vê assim. Considera-se, de fato, detentora de uma chatice imensurável da qual não consegue fugir. Ela é mais uma no gargalhar das vozes e no ruir das paredes. Não sabe seguir um estilo; talvez seja ela do estilo dos sem-estilos? Gosta de Converse, vestidos floreados e roupas de bolinha, além das sonoridades leves de quem tem muito a dizer. Utiliza-se das entrelinhas e senta no chão à espera de entendimento ou de surpresa boa que lhe arranque um sorriso.
Já plantou uma árvore, tem dois livros publicados contendo algumas poesias de sua autoria e – obviamente - não teve filhos. Não tem cor preferida, mas entende que o número “dez” traz algum tipo de boas vibrações que excedem as notas que sempre almeja nas provas escolares. Há pouco, descobriu-se querida por muitos e desgostosa por quase ninguém.
É dona de vários eus líricos que brigam e disputam espaço e constância no universo da variabilidade. Um recanto de sonhos e pesadelos, poço do que é insofismavelmente fajuto, resultado, raiz quadrada e potência complexa, imaginária e sem solução. Laíza, sob a ótica não depreciativa e exaltadora das coisas boas que não surge com exorbitante frequência.
Laíza, eu. Laíza Rabaioli.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Met(amor)fose

A Metamorfose

Sou uma barata.
Não deve haver surpresa nem mistério: sou uma barata.
Dizem que meu sangue é azul.
Na verdade, ele é mais do que azul - ele é da cor do céu.
Dizem que sou suja.
Desconsideram o fato de que a água da chuva me lava todos os dias.
Dizem que me reproduzo facilmente.
Não sabem que baratas podem ser inférteis devido à ingestão demasiada de açúcar.
Dizem que sou traiçoeira.
Esquecem que sou apenas dotada de instinto e que também gosto de alguns confortos.
Dizem que sou nojenta.
Fazem pouco caso dos meus hábitos de higiene e de minhas tentativas (falhas) de evitar humanos.
Dizem que vivo em esgotos.
Têm pouco conhecimento sobre a hierarquia de nossa tribo: o esgoto é dos roedores.
Dizem que mereço ser exterminada, que sou um mal em massa, conotação do horror.
Não pensam que posso ter traumas.
Dores.
Não falam sobre o meu eu lírico.
Não entendem que o meu real e inefável desejo era ser uma borboleta.
Não compreendem que, com minhas crises de depressão ocasionadas por um amor não-correspondido a um pernilongo, às vezes posso querer ficar sozinha.
Não discutem sobre as oportunidades de emprego que não me foram oferecidas.
Quando durmo na soleira da porta da sua casa, não estou preparando-me para roubar sua comida. Estou somente sonhando em ser uma borboleta.
Aguardo a metamorfose.
A vida é bela,
mas acontece que sou uma barata triste
e existir me custa caro...
Quero borboletear.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

"Eu mesma me encarcero...

...E ninguém jamais me deixará sair."

Às vezes, quero um remédio. Um pouco de vinho, uma dose de aguardente para acalmar os ânimos e satisfazer os pedidos negados. Por ora - de acordo com a estação, talvez! - a embriaguez é ansiada. Murmuro desejos e sinto o líquido ácido qualquer escorrer pela minha garganta. Quero sentir meu corpo dormente, a mente libertada, risos sem razão, movimentos corporais tensos e intensos, os pensamentos voando por aí, descontrolados, parando em um fulano qualquer que agrade a minha futilidade onipresente.
Para afogar as mágoas e me render aos meus próprios equívocos: é errado cometer certos erros? "Embriagai-vos", como me contou Baudelaire. Embriago-me: cheia de virtude, repleta de graça, rodeada pelo desejo. Não sei se é para esquecer do vazio ou para me lembrar do que esqueci.
É um belo disfarce. Adentrar-me ao grupo o qual, há pouco tempo, era vítima de meus fatídicos julgamentos e menoscabos. Substituí o desprezo por atração, a depreciação por interesse e orgulho próprio.
Orgulho! Falso orgulho de mim, derivado do amor à minha corrosão. Escorro - pelo ralo, com a chuva, esvaeço com o tempo. Fica o torpor, o cheiro do que eu era, a vontade de ser de novo e o vazio do me tornar diferente.
Pela substituição, dedico-me ao estudo. Estudo matemático, filosófico, sociológico ou literário; mais do que isso, emocional. Substituo pessoas e inverto sentimentos, o padrão cai em desuso e a racionalidade maléfica sai para a entrada do impulso. Conta hoje, importa agora, exporta nunca.
Nos momentos de pacacidade, a inquietude interna se revela. "Eu sempre estive aqui", ela me conta. "Sempre estive aqui e não pretendo ir embora. Sou parte de ti e conto a tua história. Sou tua mas, além disso, tu és minha. Domino-te. Você pode tentar fugir pelas entrelinhas e escapar pelas frestas das portas das monstruosidades que deixei propositalmente abertas - não durará muito tempo."
Coloco as mãos nos ouvidos, aumento o volume da música, tomo um café e grito para me mandar parar. O vazio murmura as ordens, sussurra, e ouço a respiração da solidão no meu pescoço. Sem ou com consciência, o vazio continua lá (aqui!), independente das ações da natureza ou dos fatores físicos ou biológicos. Nem os aspectos sociais vão me alterar... 
"Você é linda. A realidade também é bonita" - dessa vez, não é a consciência, a inquietude nem o relaxamento; são as pessoas do meu passado, o recital das mentiras continua a fazer o seu espetáculo. Paguei caro demais pelo ingresso, o show não era tão bom ou convincente quanto as propagandas diziam.
Nesse jogo onde não há heróis ou vilões, sou simultaneamente minha própria salvadora e inimiga. Não gosto de vinganças, evito a dor e prefiro a justiça natural que surge com o acaso. Há de se transformar algo, para melhor ou para pior, algo há de mudar em mim.
Vem mudando. Não daquele jeito de antes, na prisão que vivi por meses, acreditando encontrar a chave para toda a desordem resguardada em mim. Assumo que sou contraditória, confusa, complexa e atormentada pelas teorias do caos que reinventei à meu gosto.  Sei que sou muito nada e pouco tudo. Não quero além disso: só quero me descobrir.
Sem ninguém, sem dores e sem amores, muito menos desamores ou acidez. Recebi distração em troca da felicidade e acabei me acostumando.
Mais um copo de vinho, uma garrafa de distração, um pingo de impetuosidade e fulanos e ciclanos que alimentem a sede e entendam o momento. 
Na escolha entre a verdade e a mentira, eu fico com a minha imaginação.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Jura, injúria

Enquanto o dia não chega, enquanto a vontade não cessa, enquanto o ser é só ser sem existir, eu vou desenhando meu caminho, tremendo as mãos e traçando curvas mais íngremes que as recomendáveis. Vou, assim sem mais nem "mas", caminhando com pressa e correndo devagar, gritando no silêncio e conformando-me com o clichê. Idolatrando a contrariedade e a plurissignificação de minhas certezas, distraio-me com o óbvio, questiono as prioridades, esqueço das relevâncias, entrego-me à insensatez. O que será nascer sem existência e ser sem obediência à si mesma? Tropeçar nos escombros do incêndio da minha inconsciência é deveras inseguro. E vou, vou pensando em querer e querendo ser. Flutuo na surrealidade.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Saudações aos velhos novos sentimentos

Os
erros
são
certos.
Vivo
vivendo
(fingindo)
viver.
Aguardo
o
esquecimento;
ele
nunca
vem. 
O
que
se
mantém
são 
as
lembranças.
Sei
o
que
eu
era,
mas 
não
reconheço
quem
sou.
Não
há
limites
para
a 
imaginação;
não
há
barreiras 
que
estanquem
a
perdição.
Não
posso
me
(te)
decepcionar.
Ouça
as
vozes
do
meu
inconsciente,
escute
meu
coração.
Desintregro,
desencontro,
desamo,
desespero,
desanimo,
desisto.
Digamos
viva
à
estupefata
embriaguez;
que
ela
- e
só
ela(e) -
me
guie
na
covardia
de
minhas
tentativas.
Insólita
sobriedade,
leve
com
você
a
sua
(minha)
mala
de
inseguranças.
Assumo
as
consequências
de
meus
falhos
escassos
inóspitos
atos.
Ou
tu
me
levas
daqui
- para
o 
país
dos
recantos
gentis -,
ou
eu
aprendo
a
fugir
de 
mim.
Enfrentar-me-ei.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Minhas adoráveis obrigações

O esforço de alguns (bons) dias concretizado em resultados satisfatórios. Não poderia deixar passar em branco...

DEMOCRACIA E CULTURALIZAÇÃO

          Conceitua-se como “cultura” o conjunto de valores, crenças, hábitos, costumes, tradições, modos de pensar e agir que são consoantes à vida de determinado grupo, integrando-se às pessoas e conferindo identidade às mesmas.1 As práticas culturais são a moldura da sociedade, e atuam como ponto norteador para o desenvolvimento das relações em todos os âmbitos – social, econômico e educacional.
A sociedade contemporânea é circundada por intensos e variáveis processos de transformação. O mundo gira em torno do seu próprio conhecimento, redefinindo valores e reconstruindo conceitos. As percepções alteram-se conforme as circunstâncias, e o pensamento rompe os aparentes muros de concreto que delimitavam as relações sociais. Involuntariamente, reorganizam-se as instâncias do processo de culturalização.
          Tendo em vista que a cultura não é uma construção hierárquica, de caráter evolucionário – nenhuma cultura pode ser considerada superior ou inferior à outra -, cada indivíduo atua como agente e disseminador de seus pensamentos. Involuntariamente, a organização social funciona como uma “máquina de produzir cultura”, onde intensamente agregam-se novos valores e condicionam-se novas maneiras de correlação entre as distintas identidades culturais. A diversidade cultural consiste na coexistência de diferentes culturas em uma mesma região, delineando as estratégias para a elaboração de políticas culturais competentes e atuantes em sua amplitude.2
     A população detém, em sua maioria, uma vontade crescente e volátil de conviver com o próximo; uma sede inacabável de produzir e manifestar seus desejos e pensamentos culturais. De acordo com a Constituição³, é dever do governo garantir que a nação seja contornada por diversos eixos culturais e transversalizada pela liberdade de escolha entre as opções de pensamento, assim como é um direito de cada indivíduo ter pleno acesso às praticas culturais de todos os contextos sociais, sem as idiossincrasias dos “eruditos” e dos “populares”.
     Dessa forma, a democratização cultural não é a liberalização do acesso à “alta cultura”; ela justamente contesta a prevalência da cultura dita de elite, da falsa dicotomia da cultura.4 A universalização e descentralização da cultura oportuniza a intersecção de valores, crenças e hábitos, promovendo trocas interculturais entre grupos.
     Paralelamente, a acessibilidade cultural é uma das grandes exigências impostas – e dispostas – na sociedade, ao complementar-se com a diversidade. De acordo com dados do Banco Mundial, as indústrias culturais (ou também chamadas de “criativas”) representam cerca de 7% do PIB mundial.5 A cultura movimenta a economia e deve ser aliada às práticas educacionais que favoreçam a cidadania e pluralidade culturais, preparando formadores de opinião com nível elevado de criticidade. Trata-se de uma articulação entre Estado, promovendo políticas públicas pertinentes à área cultural, e população, atuando como produtores, agentes e/ou disseminadores da cultura.
     Cabe ao governo – em seus âmbitos municipal, estadual e federal - garantir espaço e condições para viabilizar a produção e/ou reprodução das práticas culturais em seus inúmeros cenários; ou seja, é seu papel fornecer subsídios a fim de fomentar as manifestações e atender suas demandas, estimulando a autonomia dos grupos para que possam identificar as expressões existentes e recriar suas visões. O artigo 215 da Constituição do Brasil prevê “a defesa e valorização do patrimônio cultural brasileiro; produção, promoção e difusão de bens culturais;  formação de pessoal qualificado para a gestão da cultura em suas múltiplas dimensões;  democratização do acesso aos bens de cultura; valorização da diversidade étnica e regional”, estabelecendo as diretrizes do Plano Nacional de Cultura.6
     A democratização cultural é mais do que uma necessidade; ela se apresenta como uma realidade que precisa ser difundida, estimulada e dinamizada. A cultura deve ser um produto acessível para todas as camadas da população, sem restrições ou segregações, considerando que a interação entre os diferentes legados de cada grupo não traz prejuízos de identidade ou pormenores prejudiciais. Como disse Gandhi: “Nenhuma cultura poderá viver se tentar ser exclusiva”.7 A humanização cultural é a peça-chave para a sustentabilização e ascensão da democracia em sua magnitude presente em todas as esferas sociais.

(Laiza Rabaioli é aluna do Curso Técnico de Nível Médio em Gestão Cultural – Forma Integrada do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-rio-grandense (IFSul) – Campus Sapucaia do Sul.)


REFERÊNCIAS UTILIZADAS
1 De acordo com o conceito formulado por Edward Burnett Tylor em seu livro “Primitive culture: researches into the development of mythology, philosophy, religion, art, and custom” (1871).
2 REIS, Ana Carla Fonseca. Economia da cultura e desenvolvimento sustentável: o caleidoscópio da cultura, p. 145.
3 Artigo 215 da Constituição Federal do Brasil, disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constitui%C3%A7ao.htm>. Acessado em 20 de junho de 2011, às 18 horas.
4 REIS, Ana Carla Fonseca. Economia da cultura e desenvolvimento sustentável: o caleidoscópio da cultura, p. 150.
5 Disponível em: <http://www.cultura.gov.br/site/2008/04/01/economia-da-cultura-um-setor-estrategico-para-o-pais/>. Acessado em 20 de junho de 2011, às 18 horas.
6 Baseado no Plano Nacional de Cultura do Brasil, disponível em: <http://www.cultura.gov.br/site/2011/05/26/plano-nacional-de-cultura-21/>. Acessado em 20 de junho de 2011, às 18 horas.
7 REIS, Ana Carla Fonseca. Economia da cultura e desenvolvimento sustentável: o caleidoscópio da cultura, p. 144.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Mr. Moonlight

Quero o meu eu
Cristalizado no teu.
Quero esquecer do peso da gravidade
Me libertar daquelas doces maldades
Que por ventura possam estar gravadas
Na tua pele, na minha pele.
Quero ser junto contigo
Te entender de perto
Acariciar tuas mãos
Oferecer meus braços como acalento
Fazer da minha mente a tua casa.
Quero (d)escrever teus olhos
Ouvir tuas reclamações
Dizer que tudo vai ficar bem
Porque, você sabe, tudo vai se ajeitar.
Quero caminhar na estrada
Te encontrar na curva
Te esperar na chuva
Molhar meus cabelos
Receber teu abraço
Te ouvir dizer que sou um caso perdido.
Quero errar
Ouvir você chorar
Rir dos teus pudores
Esquecer das minhas dores
Apagar meus paradigmas.
Quero que você faça laços
Me prenda junto a ti
Com laços fortes e decorados
Não quero pensar em fugir.
Quero me sentir bem
Adorar a ilusão
Transformar a paixão
Sair da prisão da mente
Sentir o sol arder quente.
Quero fazer da minha vida um filme
Seja o protagonista do nosso romance
Sem dramas, sem traições
Estagnar no início
Recomeçando a cada manhã
Te ver como vilão, meu vício.
Quero que as estações mudem
O tempo passe
As modas se readaptem
E você continue aqui.
Aqui? Aonde?
Perto
No pensamento
Na presença
No sentimento
Na morte 
Na doença.
Quero
Não peço demais.
Quero
Espero
Me encontra.
Vejo você em breve.

domingo, 5 de junho de 2011

Subterfúgio

Eu não sei viver sem ser clichê. Não sei existir sem sentir esperança. Não sei amar a mim mesma sem envolver a surrealidade.
Pronuncio palavras objetivando explicar-me aos outros. Quero dizer o que sou, sinto, espero e desprezo; quero tornar-me clara e facilmente visível como o sol no verão. Mas também sou amante do frio...
É essa presença excessiva de faltas que me deixa "blasé" e distante. Convivo com a minha vontade de acreditar, enquanto minha razão sussurra dizeres como "vá com calma. Hipoteticamente, isso vai dar errado".
Definitivamente, minha vida não é uma afirmação e minhas certezas não terminam com exclamações. A relatividade obriga a suave aparição das reticências - os três pontinhos que alimentam minhas expectativas e possibilitam que minha imaginação se torne o melhor lugar de todo o universo.
Sou o que tenho - minhas posses resumem-se à mim e meus sórdidos e sólidos sentimentos. Isso basta... Por enquanto, é o suficiente para me manter acesa, viva, queimando e tendo vislumbres  de futuros mais prósperos na próxima esquina.
Não sei sobre muita coisa, e encontro na dúvida o suspense que ingenuamente preciso para me sentir atraída. Sei que existo - intransitivamente, existo. Estou sendo existência abstrata. Discretamente, aparecendo. Sendo eu, por mais que eu não saiba a dimensão das coisas e não possa ser precisa ou misteriosa. Só sou adepta dos dramas.
Viver não é só encontrar acalento nos momentos felizes e encontrar-se em ilusórias e inconstantes certezas - viver é permitir-se, é chegar mais perto da complexidade e abraçar a insanidade, é caminhar descalço pelo paralelepípedo, é olhar o céu e não procurar pelas estrelas, é sentar na grama sem se preocupar com as formigas, é olhar para o mundo sem sentir medo, é deslizar pela corda-bamba e esquecer da altura, é duvidar de si mesmo e questionar o lógico, é desentender o banal e aplaudir a rotina, é adorar e desencantar-se, é acostumar-se com crescentes ciclos inacabáveis, é identificar-se, é julgar involuntariamente, é ser interpretado por visões errôneas, é estar distante e desejar ir embora, é estar sozinho e implorar por companhia, é falar dos traumas, das perdas, do que não foi, do talvez e do era uma vez, é trancafiar-se no submundo da mente e esperar que algum herói apareça.
Não requer pensamento.
Viver é assimilar as inconstâncias e recriar os paradoxos.
Pode ser como quiser ser, pode ser como permitido for, pode ser e nascer e morrer: mas que "seja doce enquanto dure" e eterno enquanto teu.
...Teu.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Meu senso de humor

- Não, eu não sinto muito. Sequer sinto ou penso alguma coisa. As únicas palavras plausíveis que passam pela minha mente e que, de alguma forma, ainda abranjam a tua existência só dizem respeito ao meu desejo de não te ver mais. Não apareça. Sequer lembre do meu nome ou dos pequenos resquícios de felicidade que ainda possam ser lembrados sobre nós. Não aprecio mais os teus gestos ou o jeito como tu seguras as minhas mãos. Aliás, tuas mãos são geladas - eu sinto frio. Você não me mantém quente, não mantém meu coração batendo forte. O teu tempero é excessivamente salgado, me deixa com sede... Sede incontrolável de ir embora e fugir. Não apareça, não recorra a outros métodos de solucionar as tuas carências infantis e a eterna solidão impregnada em teu ser. Por favor, não volte. Sinto saudades do que eu era antes de conhecer. Quero partir antes que as mudanças que ocorreram em mim sejam demasiadamente bruscas. Eu quero (e necessito) ir embora. Nada me encanta mais. O teu gosto não se assemelha com avelã; ele só tem aquela péssima amargura das despedidas. Tu não és o que eu quero; não me completas. Há um vazio que tu nunca conseguiste preencher dentro de mim. Eu sou ríspida, seca e ácida. Não te amo e espero que as tuas coisas não estejam mais na minha casa e que tu leves tudo contigo - inclusive a tua inglória paixão. Eu não sou tua.


(Porque repetir uma mentira mil vezes pode transformá-la em verdade.)

domingo, 10 de abril de 2011

"Com um sorriso desses,

...Você não precisa de olhos."

Ela mente quando diz que seus olhos dizem a verdade.
(Na verdade, ela própria é uma mentira. Uma mentira muito bem-feita, diria o seu antigo namorado.)
Ela olha para os cantos, fingindo não ver. Mas ela vê muito mais do que deseja.
(Olhos de raposa.)
Ela sente o cheiro da chuva atravessar os cantos obscuros do mundo e chegar até as suas narinas.
(Olfato aguçado.)
Ela caminha desajeitada, demonstrando um medo que não sente.
(O antônimo da insegurança.)
Ela arqueia as sombrancelhas, fingindo estar surpresa.
(Ela sabia de tudo - de tudo e mais um pouco. Ela sempre sabe.)
Ela inventa o esquecimento e se apropria do perdão.
(Nada além de valores imaginários.)
Ela é um vulcão.
(Uma cidade em chamas, um incêndio catastrófico.)
Ela inventou a si mesma, apoderando-se de características alheias e acrescentando uma pitada de fantasia.
(O mundo não é uma fantasia?)
Ela se olha no espelho, passa as mãos no cabelo, e dá um leve sorriso.
(Há quem prefira viver na ilusão. Há quem prefira acreditar no que não existe.)
Ela faz parte de uma espécie aparentemente instinta.
(Homo Sapiens?)
Ela não tem coração.
(Mas ela sente algo bater em seu peito. Talvez possa ser a culpa pela embriaguez do dia anterior.)
Ela sente frio, calor, fome e desejo.
(Ela é fruto da sua imaginação.)
Ela é a sua mente traduzida em feições delicadas e informais.
(Ela é você.)
Ela...
Utopicamente, a adorável desgraça que vaga sem direção nas mentes dos desocupados.
(Oficina do ócio.)
Entregue-se ao abismo. Vá!
O risco é relativamente agradável quando o fracasso já é garantido.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Construção (02)

CONSTRUÇÃO

Capítulo 02

"I wanna build you up brick by brick. I wanna break you down brick by brick. I'm gonna reconstruct brick by brick."

As nuvens permitem que as primeiras gotas de água caiam sobre o chão e se arrastem até os esgotos. Os trovões anunciam um temporal inesperado.
As pessoas começavam a se movimentar rapidamente, em busca de um teto que as abrigue até a chuva passar.
Por fim, as nuvens cobrem as estrelas enquanto Mrs. Parks abre a porta de seu pequeno e desarrumado apartamento no subúrbio da cidade.
A casa é decorada em tons de azul e branco, com paredes cobertas por quadros pintados em momentos de impulsividade. As cortinas se debatem contra a janela.
Jovial e perfeccionista, ela passa os dedos pela estante coberta por uma fina camada de pó.
- Tão desleixada, tão diferente... O que ele fez com você, Jude? O que você fez consigo mesma?
As memórias de algum tempo atrás rompem quaisquer resquícios de raciocínio lógico que ainda pudessem existir. Acaba - como um ato de desistência - atirando-se no sofá branco, pintado por uma mancha de gordura raramente notável à olho nu.


"Jullius pega a pequena mocinha nos braços, acariciando cuidadosamente os fios ruivos e as sardas adoráveis presentes nas bochechas da jovem. O primeiro trovão estremece o céu; a chuva causa ruídos no telhado frágil e gentil.
As mãos miúdas e o leve toque de Mrs. Parks no cabelo bagunçado de Jullius desperta arrepios na sua nuca.
- E se eu fosse loira?
- Ainda seria linda. Linda como ouro... E se eu fosse mais baixo?
- Seria o meu anão predileto. E se eu me chamasse Liz?
- Eu cantaria "Hey Liz" ao invés de "Hey Jude". E se eu fosse careca?
- Eu te faria usar um chapéu! - ela diz, escondendo a risada.
- E se...
- Ei, é a minha vez!
- Pois não, boneca.
- E se eu dissesse que te amo?
- Eu não responderia mais pelos meus atos."

terça-feira, 1 de março de 2011

Construção (01)



CONSTRUÇÃO

Capítulo 1

- O que eu estou fazendo aqui mesmo?
A colher de plástico quebra dentro do copo de café, enquanto remexe com bruscos movimentos recorrentes os resíduos açucarados do fundo. As luzes da cafeteria se apagam, enquanto o velho senhor de bigodes dita mais uma indireta para mandar a antiga cliente embora.
A cafeteria fecha as portas, mas a iluminação da calçada acende as caminhadas dos transeuntes - cada pequeno pedaço de matéria envelhecida repleta de promessas e desacasos. As cortinas se fecham nos lares desprovidos de solidão.
O banquinho da praça, tão velho e empoeirado - antes amarelo, agora marrom. Aleatoriamente, algumas folhas voam com a adorável leveza do vento.
- Tudo bem, Seu Manuel. Eu já estava indo embora.
Eternamente presa em contar os ladrilhos soltos da calçada, se mantém firme em seus pensamentos. Resmungando sobre o esquecimento de um casaco, treme de frio e acaricia seus próprios braços. As unhas rosas e o batom vermelho davam destaque aos ligeiros passos da loira criatura viajante entre mares de cegueira e procrastinação.
- Baby, você não quer se esquentar, não?
Uma voz rouca aproxima-se do pescoço delicado e branco. Os lábios ferozes tocam o redor das orelhas com furos desordenados. Petulante, embriagado e mesquinho: uma voz conhecida, que abriga a identidade ainda presente na memória da jovem. O mesmo toque macio e aveludado, e o cheiro de vodka esvaecendo-se no suor.
- Bêbado novamente, Julius?
- Minha sobriedade nunca foi infringida pelo álcool, docinho.
A provocação de sempre. A vontade de pegá-lo nos braços, jogá-lo contra a parede e fazê-lo engolir cada uma daquelas palavras sujas e impulsivas deixa a respiração de Mrs. Parks cortante. "Nojento, é isso que você é", pensa.
- Eu estou tentando reconstruir... Eu, a minha vida, tudo. Por que você não me deixa em paz?
- Construção? Eu sou o seu cimento, minha gatinha. Colo os seus pedaços e te completo, desde que você foi abençoada com a minha existência.
Asqueroso. Ainda detinha a mesma coragem de criar metáforas com alusões à seu favor. Ela o empurra para o lado - com a pequena força que ainda lhe resta - e avança com um desejo certeiro de seguir em frente.
- Não precisa ser hoje, deusa. O ciclo vai se repetir. Vou martelar na sua consciência até você parar de ser prisioneira da mente e optar pela prática, mel.
Mrs. Parks observa as estrelas e tropeça nas elevações da calçada. Algum estrondo repentino enche seus ouvidos de uma agonia perturbadora.
- Céus, enviem-me um casaco agora?