sexta-feira, 27 de maio de 2011

Meu senso de humor

- Não, eu não sinto muito. Sequer sinto ou penso alguma coisa. As únicas palavras plausíveis que passam pela minha mente e que, de alguma forma, ainda abranjam a tua existência só dizem respeito ao meu desejo de não te ver mais. Não apareça. Sequer lembre do meu nome ou dos pequenos resquícios de felicidade que ainda possam ser lembrados sobre nós. Não aprecio mais os teus gestos ou o jeito como tu seguras as minhas mãos. Aliás, tuas mãos são geladas - eu sinto frio. Você não me mantém quente, não mantém meu coração batendo forte. O teu tempero é excessivamente salgado, me deixa com sede... Sede incontrolável de ir embora e fugir. Não apareça, não recorra a outros métodos de solucionar as tuas carências infantis e a eterna solidão impregnada em teu ser. Por favor, não volte. Sinto saudades do que eu era antes de conhecer. Quero partir antes que as mudanças que ocorreram em mim sejam demasiadamente bruscas. Eu quero (e necessito) ir embora. Nada me encanta mais. O teu gosto não se assemelha com avelã; ele só tem aquela péssima amargura das despedidas. Tu não és o que eu quero; não me completas. Há um vazio que tu nunca conseguiste preencher dentro de mim. Eu sou ríspida, seca e ácida. Não te amo e espero que as tuas coisas não estejam mais na minha casa e que tu leves tudo contigo - inclusive a tua inglória paixão. Eu não sou tua.


(Porque repetir uma mentira mil vezes pode transformá-la em verdade.)

domingo, 10 de abril de 2011

"Com um sorriso desses,

...Você não precisa de olhos."

Ela mente quando diz que seus olhos dizem a verdade.
(Na verdade, ela própria é uma mentira. Uma mentira muito bem-feita, diria o seu antigo namorado.)
Ela olha para os cantos, fingindo não ver. Mas ela vê muito mais do que deseja.
(Olhos de raposa.)
Ela sente o cheiro da chuva atravessar os cantos obscuros do mundo e chegar até as suas narinas.
(Olfato aguçado.)
Ela caminha desajeitada, demonstrando um medo que não sente.
(O antônimo da insegurança.)
Ela arqueia as sombrancelhas, fingindo estar surpresa.
(Ela sabia de tudo - de tudo e mais um pouco. Ela sempre sabe.)
Ela inventa o esquecimento e se apropria do perdão.
(Nada além de valores imaginários.)
Ela é um vulcão.
(Uma cidade em chamas, um incêndio catastrófico.)
Ela inventou a si mesma, apoderando-se de características alheias e acrescentando uma pitada de fantasia.
(O mundo não é uma fantasia?)
Ela se olha no espelho, passa as mãos no cabelo, e dá um leve sorriso.
(Há quem prefira viver na ilusão. Há quem prefira acreditar no que não existe.)
Ela faz parte de uma espécie aparentemente instinta.
(Homo Sapiens?)
Ela não tem coração.
(Mas ela sente algo bater em seu peito. Talvez possa ser a culpa pela embriaguez do dia anterior.)
Ela sente frio, calor, fome e desejo.
(Ela é fruto da sua imaginação.)
Ela é a sua mente traduzida em feições delicadas e informais.
(Ela é você.)
Ela...
Utopicamente, a adorável desgraça que vaga sem direção nas mentes dos desocupados.
(Oficina do ócio.)
Entregue-se ao abismo. Vá!
O risco é relativamente agradável quando o fracasso já é garantido.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Construção (02)

CONSTRUÇÃO

Capítulo 02

"I wanna build you up brick by brick. I wanna break you down brick by brick. I'm gonna reconstruct brick by brick."

As nuvens permitem que as primeiras gotas de água caiam sobre o chão e se arrastem até os esgotos. Os trovões anunciam um temporal inesperado.
As pessoas começavam a se movimentar rapidamente, em busca de um teto que as abrigue até a chuva passar.
Por fim, as nuvens cobrem as estrelas enquanto Mrs. Parks abre a porta de seu pequeno e desarrumado apartamento no subúrbio da cidade.
A casa é decorada em tons de azul e branco, com paredes cobertas por quadros pintados em momentos de impulsividade. As cortinas se debatem contra a janela.
Jovial e perfeccionista, ela passa os dedos pela estante coberta por uma fina camada de pó.
- Tão desleixada, tão diferente... O que ele fez com você, Jude? O que você fez consigo mesma?
As memórias de algum tempo atrás rompem quaisquer resquícios de raciocínio lógico que ainda pudessem existir. Acaba - como um ato de desistência - atirando-se no sofá branco, pintado por uma mancha de gordura raramente notável à olho nu.


"Jullius pega a pequena mocinha nos braços, acariciando cuidadosamente os fios ruivos e as sardas adoráveis presentes nas bochechas da jovem. O primeiro trovão estremece o céu; a chuva causa ruídos no telhado frágil e gentil.
As mãos miúdas e o leve toque de Mrs. Parks no cabelo bagunçado de Jullius desperta arrepios na sua nuca.
- E se eu fosse loira?
- Ainda seria linda. Linda como ouro... E se eu fosse mais baixo?
- Seria o meu anão predileto. E se eu me chamasse Liz?
- Eu cantaria "Hey Liz" ao invés de "Hey Jude". E se eu fosse careca?
- Eu te faria usar um chapéu! - ela diz, escondendo a risada.
- E se...
- Ei, é a minha vez!
- Pois não, boneca.
- E se eu dissesse que te amo?
- Eu não responderia mais pelos meus atos."

terça-feira, 1 de março de 2011

Construção (01)



CONSTRUÇÃO

Capítulo 1

- O que eu estou fazendo aqui mesmo?
A colher de plástico quebra dentro do copo de café, enquanto remexe com bruscos movimentos recorrentes os resíduos açucarados do fundo. As luzes da cafeteria se apagam, enquanto o velho senhor de bigodes dita mais uma indireta para mandar a antiga cliente embora.
A cafeteria fecha as portas, mas a iluminação da calçada acende as caminhadas dos transeuntes - cada pequeno pedaço de matéria envelhecida repleta de promessas e desacasos. As cortinas se fecham nos lares desprovidos de solidão.
O banquinho da praça, tão velho e empoeirado - antes amarelo, agora marrom. Aleatoriamente, algumas folhas voam com a adorável leveza do vento.
- Tudo bem, Seu Manuel. Eu já estava indo embora.
Eternamente presa em contar os ladrilhos soltos da calçada, se mantém firme em seus pensamentos. Resmungando sobre o esquecimento de um casaco, treme de frio e acaricia seus próprios braços. As unhas rosas e o batom vermelho davam destaque aos ligeiros passos da loira criatura viajante entre mares de cegueira e procrastinação.
- Baby, você não quer se esquentar, não?
Uma voz rouca aproxima-se do pescoço delicado e branco. Os lábios ferozes tocam o redor das orelhas com furos desordenados. Petulante, embriagado e mesquinho: uma voz conhecida, que abriga a identidade ainda presente na memória da jovem. O mesmo toque macio e aveludado, e o cheiro de vodka esvaecendo-se no suor.
- Bêbado novamente, Julius?
- Minha sobriedade nunca foi infringida pelo álcool, docinho.
A provocação de sempre. A vontade de pegá-lo nos braços, jogá-lo contra a parede e fazê-lo engolir cada uma daquelas palavras sujas e impulsivas deixa a respiração de Mrs. Parks cortante. "Nojento, é isso que você é", pensa.
- Eu estou tentando reconstruir... Eu, a minha vida, tudo. Por que você não me deixa em paz?
- Construção? Eu sou o seu cimento, minha gatinha. Colo os seus pedaços e te completo, desde que você foi abençoada com a minha existência.
Asqueroso. Ainda detinha a mesma coragem de criar metáforas com alusões à seu favor. Ela o empurra para o lado - com a pequena força que ainda lhe resta - e avança com um desejo certeiro de seguir em frente.
- Não precisa ser hoje, deusa. O ciclo vai se repetir. Vou martelar na sua consciência até você parar de ser prisioneira da mente e optar pela prática, mel.
Mrs. Parks observa as estrelas e tropeça nas elevações da calçada. Algum estrondo repentino enche seus ouvidos de uma agonia perturbadora.
- Céus, enviem-me um casaco agora?

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

"Primeiro estranha-se,

...Depois entranha-se."

Andei
- devagarinho -
Pulando por cima das folhas
- docemente -
Que voavam com voraz força do vento
- manso em seus contornos -
Espelhando reflexos ocultos
- por entre os cantos -
Vislumbrando os passarinhos
- passarinhando -
Criando um rascunho de mim
- dado ao acaso -
Presenteando o destino
- sagaz em suas escolhas -
Entristecendo a vida
- sempre tão pretensiosa -
Com minhas palavras ociosas
- inegavelmente necessárias -
Amando-te nas entrelinhas
- escondidinha -
Entre arbustos
- voltam as folhas? -
Entre sedes e vontades
- sonhos e felicidades -
Nas tortas retidões que me impunhas.

(Entre travessões, detalhes. Entre palavras, sentimentos.)

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Honey pie

Buraco negro

Talvez agora eu tenha
Alguma certeza descabida
Certa vontade imensurável
Em linhas tortas e indevidas.

Alegria inexplicável a que sinto agora!
Aliás, resume-se a um único ser.
É a paixão pelo que sou quando estou contigo.
É a ingenuidade doce nos meus sonhos de te conhecer.

Deixa-me?
Te ter, mesmo não te tendo.
Te amar, mesmo sem querer.
Permita-me aproveitar a candura e a ternura que teus olhos me proporcionam?

Te esperar não é uma tareda árdua.
Uma indecisão gostosa,
Que fica em minhas entranhas
Provocando uma esperança infantil e charmosa.

Involuntariamente,
tu me inseres num mundo novo.
No teu mundo...
O meu mundo!

Há uma palavra
Que possa denominar os indecifráveis ingredientes dessa receita.
Não é amor,
Não é paixão.
É devoção.

Pura e intensa devoção ao surreal ato de te ter.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O que o ócio me faz

Ensaios de Embriaguez

O mundo perdido,
O fogo dos olhares corrompidos.
Os navios detentores de riquezas,
As aldeias transformadas em represas de tamanha tristeza.
Almas erradas se encontram,
Pensamentos sutis se esquivam,
Mãos separadas por acasos e descasos.
Ordens não-cumpridas,
Prisões estabelecidas,
Condenações e depreciações.
O que será ser?
Fatos, enredos e inventos.
Versões, afirmações e erratas.
Mal sabiam eles
- reles mortais -
Que da vida eram cobaias,
E de si mesmos eram reféns!

***

Escrevo as linhas tortas de um verso,
Como quem dança à procura de atenção.
Busco em mim a resposta
Para coisas ausentes de exatidão.
Conheço-me por inteira,
Entrego-me ao ensaio inacabado dos atos,
Vivo na espera do que não sei.
Pois, me diga:
Rotina não é só um mero eufemismo para desesperança?

***

Quarenta dias ele prometeu,
Quarenta dias foram a eternidade.
Arrumei a velha casa:
Lavei os vidros,
Dei brilho ao chão,
Engraxei os sapatos,
Comprei colares,
Abri a janela
E contei as horas.
Quando o avistei chegando,
Foi que lembrei-me do que havia esquecido outrora:
Do que adianta ser vistosa,
Se por dentro estou recheada de pó?

***

Pisando sobre diamantes,
Tateando ao encontro do nada,
Destilando veneno por entre os dedos.
As formigas,
Com seu andar aflito e exasperado,
Me contam histórias.
As abelhas me ensinam a fazer mel.
Os peixes me abrem os olhos,
Meus fios de cabelo deixo crescer.
Óh, Deus, perdi meu sapato!
Sou a princesa de um reino
Onde a loucura é moeda de troca.
Os fantasmas transitam,
Mas sempre esquecem de fechar a porta!