sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Met(amor)fose

A Metamorfose

Sou uma barata.
Não deve haver surpresa nem mistério: sou uma barata.
Dizem que meu sangue é azul.
Na verdade, ele é mais do que azul - ele é da cor do céu.
Dizem que sou suja.
Desconsideram o fato de que a água da chuva me lava todos os dias.
Dizem que me reproduzo facilmente.
Não sabem que baratas podem ser inférteis devido à ingestão demasiada de açúcar.
Dizem que sou traiçoeira.
Esquecem que sou apenas dotada de instinto e que também gosto de alguns confortos.
Dizem que sou nojenta.
Fazem pouco caso dos meus hábitos de higiene e de minhas tentativas (falhas) de evitar humanos.
Dizem que vivo em esgotos.
Têm pouco conhecimento sobre a hierarquia de nossa tribo: o esgoto é dos roedores.
Dizem que mereço ser exterminada, que sou um mal em massa, conotação do horror.
Não pensam que posso ter traumas.
Dores.
Não falam sobre o meu eu lírico.
Não entendem que o meu real e inefável desejo era ser uma borboleta.
Não compreendem que, com minhas crises de depressão ocasionadas por um amor não-correspondido a um pernilongo, às vezes posso querer ficar sozinha.
Não discutem sobre as oportunidades de emprego que não me foram oferecidas.
Quando durmo na soleira da porta da sua casa, não estou preparando-me para roubar sua comida. Estou somente sonhando em ser uma borboleta.
Aguardo a metamorfose.
A vida é bela,
mas acontece que sou uma barata triste
e existir me custa caro...
Quero borboletear.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

"Eu mesma me encarcero...

...E ninguém jamais me deixará sair."

Às vezes, quero um remédio. Um pouco de vinho, uma dose de aguardente para acalmar os ânimos e satisfazer os pedidos negados. Por ora - de acordo com a estação, talvez! - a embriaguez é ansiada. Murmuro desejos e sinto o líquido ácido qualquer escorrer pela minha garganta. Quero sentir meu corpo dormente, a mente libertada, risos sem razão, movimentos corporais tensos e intensos, os pensamentos voando por aí, descontrolados, parando em um fulano qualquer que agrade a minha futilidade onipresente.
Para afogar as mágoas e me render aos meus próprios equívocos: é errado cometer certos erros? "Embriagai-vos", como me contou Baudelaire. Embriago-me: cheia de virtude, repleta de graça, rodeada pelo desejo. Não sei se é para esquecer do vazio ou para me lembrar do que esqueci.
É um belo disfarce. Adentrar-me ao grupo o qual, há pouco tempo, era vítima de meus fatídicos julgamentos e menoscabos. Substituí o desprezo por atração, a depreciação por interesse e orgulho próprio.
Orgulho! Falso orgulho de mim, derivado do amor à minha corrosão. Escorro - pelo ralo, com a chuva, esvaeço com o tempo. Fica o torpor, o cheiro do que eu era, a vontade de ser de novo e o vazio do me tornar diferente.
Pela substituição, dedico-me ao estudo. Estudo matemático, filosófico, sociológico ou literário; mais do que isso, emocional. Substituo pessoas e inverto sentimentos, o padrão cai em desuso e a racionalidade maléfica sai para a entrada do impulso. Conta hoje, importa agora, exporta nunca.
Nos momentos de pacacidade, a inquietude interna se revela. "Eu sempre estive aqui", ela me conta. "Sempre estive aqui e não pretendo ir embora. Sou parte de ti e conto a tua história. Sou tua mas, além disso, tu és minha. Domino-te. Você pode tentar fugir pelas entrelinhas e escapar pelas frestas das portas das monstruosidades que deixei propositalmente abertas - não durará muito tempo."
Coloco as mãos nos ouvidos, aumento o volume da música, tomo um café e grito para me mandar parar. O vazio murmura as ordens, sussurra, e ouço a respiração da solidão no meu pescoço. Sem ou com consciência, o vazio continua lá (aqui!), independente das ações da natureza ou dos fatores físicos ou biológicos. Nem os aspectos sociais vão me alterar... 
"Você é linda. A realidade também é bonita" - dessa vez, não é a consciência, a inquietude nem o relaxamento; são as pessoas do meu passado, o recital das mentiras continua a fazer o seu espetáculo. Paguei caro demais pelo ingresso, o show não era tão bom ou convincente quanto as propagandas diziam.
Nesse jogo onde não há heróis ou vilões, sou simultaneamente minha própria salvadora e inimiga. Não gosto de vinganças, evito a dor e prefiro a justiça natural que surge com o acaso. Há de se transformar algo, para melhor ou para pior, algo há de mudar em mim.
Vem mudando. Não daquele jeito de antes, na prisão que vivi por meses, acreditando encontrar a chave para toda a desordem resguardada em mim. Assumo que sou contraditória, confusa, complexa e atormentada pelas teorias do caos que reinventei à meu gosto.  Sei que sou muito nada e pouco tudo. Não quero além disso: só quero me descobrir.
Sem ninguém, sem dores e sem amores, muito menos desamores ou acidez. Recebi distração em troca da felicidade e acabei me acostumando.
Mais um copo de vinho, uma garrafa de distração, um pingo de impetuosidade e fulanos e ciclanos que alimentem a sede e entendam o momento. 
Na escolha entre a verdade e a mentira, eu fico com a minha imaginação.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Jura, injúria

Enquanto o dia não chega, enquanto a vontade não cessa, enquanto o ser é só ser sem existir, eu vou desenhando meu caminho, tremendo as mãos e traçando curvas mais íngremes que as recomendáveis. Vou, assim sem mais nem "mas", caminhando com pressa e correndo devagar, gritando no silêncio e conformando-me com o clichê. Idolatrando a contrariedade e a plurissignificação de minhas certezas, distraio-me com o óbvio, questiono as prioridades, esqueço das relevâncias, entrego-me à insensatez. O que será nascer sem existência e ser sem obediência à si mesma? Tropeçar nos escombros do incêndio da minha inconsciência é deveras inseguro. E vou, vou pensando em querer e querendo ser. Flutuo na surrealidade.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Saudações aos velhos novos sentimentos

Os
erros
são
certos.
Vivo
vivendo
(fingindo)
viver.
Aguardo
o
esquecimento;
ele
nunca
vem. 
O
que
se
mantém
são 
as
lembranças.
Sei
o
que
eu
era,
mas 
não
reconheço
quem
sou.
Não

limites
para

imaginação;
não

barreiras 
que
estanquem
a
perdição.
Não
posso
me
(te)
decepcionar.
Ouça
as
vozes
do
meu
inconsciente,
escute
meu
coração.
Desintregro,
desencontro,
desamo,
desespero,
desanimo,
desisto.
Digamos
viva
à
estupefata
embriaguez;
que
ela
- e

ela(e) -
me
guie
na
covardia
de
minhas
tentativas.
Insólita
sobriedade,
leve
com
você
a
sua
(minha)
mala
de
inseguranças.
Assumo
as
consequências
de
meus
falhos
escassos
inóspitos
atos.
Ou
tu
me
levas
daqui
- para

país
dos
recantos
gentis -,
ou
eu
aprendo
a
fugir
de 
mim.
Enfrentar-me-ei.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Minhas adoráveis obrigações

O esforço de alguns (bons) dias concretizado em resultados satisfatórios. Não poderia deixar passar em branco...

DEMOCRACIA E CULTURALIZAÇÃO

          Conceitua-se como “cultura” o conjunto de valores, crenças, hábitos, costumes, tradições, modos de pensar e agir que são consoantes à vida de determinado grupo, integrando-se às pessoas e conferindo identidade às mesmas.1 As práticas culturais são a moldura da sociedade, e atuam como ponto norteador para o desenvolvimento das relações em todos os âmbitos – social, econômico e educacional.
A sociedade contemporânea é circundada por intensos e variáveis processos de transformação. O mundo gira em torno do seu próprio conhecimento, redefinindo valores e reconstruindo conceitos. As percepções alteram-se conforme as circunstâncias, e o pensamento rompe os aparentes muros de concreto que delimitavam as relações sociais. Involuntariamente, reorganizam-se as instâncias do processo de culturalização.
          Tendo em vista que a cultura não é uma construção hierárquica, de caráter evolucionário – nenhuma cultura pode ser considerada superior ou inferior à outra -, cada indivíduo atua como agente e disseminador de seus pensamentos. Involuntariamente, a organização social funciona como uma “máquina de produzir cultura”, onde intensamente agregam-se novos valores e condicionam-se novas maneiras de correlação entre as distintas identidades culturais. A diversidade cultural consiste na coexistência de diferentes culturas em uma mesma região, delineando as estratégias para a elaboração de políticas culturais competentes e atuantes em sua amplitude.2
     A população detém, em sua maioria, uma vontade crescente e volátil de conviver com o próximo; uma sede inacabável de produzir e manifestar seus desejos e pensamentos culturais. De acordo com a Constituição³, é dever do governo garantir que a nação seja contornada por diversos eixos culturais e transversalizada pela liberdade de escolha entre as opções de pensamento, assim como é um direito de cada indivíduo ter pleno acesso às praticas culturais de todos os contextos sociais, sem as idiossincrasias dos “eruditos” e dos “populares”.
     Dessa forma, a democratização cultural não é a liberalização do acesso à “alta cultura”; ela justamente contesta a prevalência da cultura dita de elite, da falsa dicotomia da cultura.4 A universalização e descentralização da cultura oportuniza a intersecção de valores, crenças e hábitos, promovendo trocas interculturais entre grupos.
     Paralelamente, a acessibilidade cultural é uma das grandes exigências impostas – e dispostas – na sociedade, ao complementar-se com a diversidade. De acordo com dados do Banco Mundial, as indústrias culturais (ou também chamadas de “criativas”) representam cerca de 7% do PIB mundial.5 A cultura movimenta a economia e deve ser aliada às práticas educacionais que favoreçam a cidadania e pluralidade culturais, preparando formadores de opinião com nível elevado de criticidade. Trata-se de uma articulação entre Estado, promovendo políticas públicas pertinentes à área cultural, e população, atuando como produtores, agentes e/ou disseminadores da cultura.
     Cabe ao governo – em seus âmbitos municipal, estadual e federal - garantir espaço e condições para viabilizar a produção e/ou reprodução das práticas culturais em seus inúmeros cenários; ou seja, é seu papel fornecer subsídios a fim de fomentar as manifestações e atender suas demandas, estimulando a autonomia dos grupos para que possam identificar as expressões existentes e recriar suas visões. O artigo 215 da Constituição do Brasil prevê “a defesa e valorização do patrimônio cultural brasileiro; produção, promoção e difusão de bens culturais;  formação de pessoal qualificado para a gestão da cultura em suas múltiplas dimensões;  democratização do acesso aos bens de cultura; valorização da diversidade étnica e regional”, estabelecendo as diretrizes do Plano Nacional de Cultura.6
     A democratização cultural é mais do que uma necessidade; ela se apresenta como uma realidade que precisa ser difundida, estimulada e dinamizada. A cultura deve ser um produto acessível para todas as camadas da população, sem restrições ou segregações, considerando que a interação entre os diferentes legados de cada grupo não traz prejuízos de identidade ou pormenores prejudiciais. Como disse Gandhi: “Nenhuma cultura poderá viver se tentar ser exclusiva”.7 A humanização cultural é a peça-chave para a sustentabilização e ascensão da democracia em sua magnitude presente em todas as esferas sociais.

(Laiza Rabaioli é aluna do Curso Técnico de Nível Médio em Gestão Cultural – Forma Integrada do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-rio-grandense (IFSul) – Campus Sapucaia do Sul.)


REFERÊNCIAS UTILIZADAS
1 De acordo com o conceito formulado por Edward Burnett Tylor em seu livro “Primitive culture: researches into the development of mythology, philosophy, religion, art, and custom” (1871).
2 REIS, Ana Carla Fonseca. Economia da cultura e desenvolvimento sustentável: o caleidoscópio da cultura, p. 145.
3 Artigo 215 da Constituição Federal do Brasil, disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constitui%C3%A7ao.htm>. Acessado em 20 de junho de 2011, às 18 horas.
4 REIS, Ana Carla Fonseca. Economia da cultura e desenvolvimento sustentável: o caleidoscópio da cultura, p. 150.
5 Disponível em: <http://www.cultura.gov.br/site/2008/04/01/economia-da-cultura-um-setor-estrategico-para-o-pais/>. Acessado em 20 de junho de 2011, às 18 horas.
6 Baseado no Plano Nacional de Cultura do Brasil, disponível em: <http://www.cultura.gov.br/site/2011/05/26/plano-nacional-de-cultura-21/>. Acessado em 20 de junho de 2011, às 18 horas.
7 REIS, Ana Carla Fonseca. Economia da cultura e desenvolvimento sustentável: o caleidoscópio da cultura, p. 144.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Mr. Moonlight

Quero o meu eu
Cristalizado no teu.
Quero esquecer do peso da gravidade
Me libertar daquelas doces maldades
Que por ventura possam estar gravadas
Na tua pele, na minha pele.
Quero ser junto contigo
Te entender de perto
Acariciar tuas mãos
Oferecer meus braços como acalento
Fazer da minha mente a tua casa.
Quero (d)escrever teus olhos
Ouvir tuas reclamações
Dizer que tudo vai ficar bem
Porque, você sabe, tudo vai se ajeitar.
Quero caminhar na estrada
Te encontrar na curva
Te esperar na chuva
Molhar meus cabelos
Receber teu abraço
Te ouvir dizer que sou um caso perdido.
Quero errar
Ouvir você chorar
Rir dos teus pudores
Esquecer das minhas dores
Apagar meus paradigmas.
Quero que você faça laços
Me prenda junto a ti
Com laços fortes e decorados
Não quero pensar em fugir.
Quero me sentir bem
Adorar a ilusão
Transformar a paixão
Sair da prisão da mente
Sentir o sol arder quente.
Quero fazer da minha vida um filme
Seja o protagonista do nosso romance
Sem dramas, sem traições
Estagnar no início
Recomeçando a cada manhã
Te ver como vilão, meu vício.
Quero que as estações mudem
O tempo passe
As modas se readaptem
E você continue aqui.
Aqui? Aonde?
Perto
No pensamento
Na presença
No sentimento
Na morte 
Na doença.
Quero
Não peço demais.
Quero
Espero
Me encontra.
Vejo você em breve.

domingo, 5 de junho de 2011

Subterfúgio

Eu não sei viver sem ser clichê. Não sei existir sem sentir esperança. Não sei amar a mim mesma sem envolver a surrealidade.
Pronuncio palavras objetivando explicar-me aos outros. Quero dizer o que sou, sinto, espero e desprezo; quero tornar-me clara e facilmente visível como o sol no verão. Mas também sou amante do frio...
É essa presença excessiva de faltas que me deixa "blasé" e distante. Convivo com a minha vontade de acreditar, enquanto minha razão sussurra dizeres como "vá com calma. Hipoteticamente, isso vai dar errado".
Definitivamente, minha vida não é uma afirmação e minhas certezas não terminam com exclamações. A relatividade obriga a suave aparição das reticências - os três pontinhos que alimentam minhas expectativas e possibilitam que minha imaginação se torne o melhor lugar de todo o universo.
Sou o que tenho - minhas posses resumem-se à mim e meus sórdidos e sólidos sentimentos. Isso basta... Por enquanto, é o suficiente para me manter acesa, viva, queimando e tendo vislumbres  de futuros mais prósperos na próxima esquina.
Não sei sobre muita coisa, e encontro na dúvida o suspense que ingenuamente preciso para me sentir atraída. Sei que existo - intransitivamente, existo. Estou sendo existência abstrata. Discretamente, aparecendo. Sendo eu, por mais que eu não saiba a dimensão das coisas e não possa ser precisa ou misteriosa. Só sou adepta dos dramas.
Viver não é só encontrar acalento nos momentos felizes e encontrar-se em ilusórias e inconstantes certezas - viver é permitir-se, é chegar mais perto da complexidade e abraçar a insanidade, é caminhar descalço pelo paralelepípedo, é olhar o céu e não procurar pelas estrelas, é sentar na grama sem se preocupar com as formigas, é olhar para o mundo sem sentir medo, é deslizar pela corda-bamba e esquecer da altura, é duvidar de si mesmo e questionar o lógico, é desentender o banal e aplaudir a rotina, é adorar e desencantar-se, é acostumar-se com crescentes ciclos inacabáveis, é identificar-se, é julgar involuntariamente, é ser interpretado por visões errôneas, é estar distante e desejar ir embora, é estar sozinho e implorar por companhia, é falar dos traumas, das perdas, do que não foi, do talvez e do era uma vez, é trancafiar-se no submundo da mente e esperar que algum herói apareça.
Não requer pensamento.
Viver é assimilar as inconstâncias e recriar os paradoxos.
Pode ser como quiser ser, pode ser como permitido for, pode ser e nascer e morrer: mas que "seja doce enquanto dure" e eterno enquanto teu.
...Teu.